16.12.05
Poesia Concretista
(p + l + vr)a =
1-
pala
lavra
a
parva
larva
parla
para
lava
vala
rala
pára
vã
2-
Parla:
"A larva parva lavra."
"A lava rala para a vala."
Pára.
3-
A pala parla:
- Parva larva! Lava, rala, lavra para a vala vã.
4-
- Palaaaa! Larva a lava para a vala.
5-
Parva pára para a pala parlar.
Larva lavra lava.
Vã vala rala.
9.10.05
A Necrofilia da Arte
Não conseguia articular uma frase que fizesse sentido. Se empenhava ao máximo, fazendo gestos largos, variando a entonação, mas ninguém conseguia entender. Às vezes, eu fingia que entendia pra num deixa-lo sem graça, coitado. Ainda dizia que ia ser professor. Dava pra imaginar a turma em pânico diante de suas circunvoluções. Tinha curiosidade da muita. Perguntava. Sugava o que havia dentro das pessoas. Queria muito ter tudo de todos dentro de si.
Um dia se apaixonou. Ela era casada, precocemente grisalha e grávida. De uns sete meses, acho. Ela, a pesquisadora, o via como uma esfinge a decifrar. Largou o marido. Nem ligou de trocar Ipanema pelo barraco debaixo do viaduto lá perto de Deodoro. Ela achava aquela experiência tão enriquecedora. Não se sentia no direito de tirar-lhe isso.
Ele a soterrava com indagações. E ela pesquisava. Mal tinha tempo pra ver o bebê. Um dia, achando tudo que ela lhe dava muito pouco, num beijo, de um só golpe, ele chupou a alma dela bem lá do fundo.
Pelo menos foi isso que ele me contou da última vez que eu fui lá e dei de cara com ela sentada na sala, com o bebê no colo, os olhos fixos na tela de Munch que eles tinham no lugar da tv. Ele disse que o bebê precisava de uma figura materna. E que não podia enterrá-la porque, tecnicamente, ela não estava morta. Só oca. Ele falou algo sobre gosto de limão e da plenitude de ser dois num corpo só. Acho que foi plenitude sim. Eu já não ouvia direito. Ele estava muito perto de mim, sussurrando as palavras de um jeito muito gostoso:
- Não vejo a hora de ser três.
Tentei chamar por socorro, mas já era tarde.
15.7.05
Eu não sou cachorro não
"Sempre parecera a Antoine contabilizar sua idade como os cães. Quando tinha sete anos, ele se sentia gasto como um homem de quarenta e nove anos; aos onze, tinha desilusões de um velho de setenta e sete anos. Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranqüila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez."
Primeiro parágrafo de Como me Tornei Estúpido, de Martin Page
"Acho que sou um cachorro sim
Acho que sou um cachorrim
Minha vida vai
Um ano contam sete
Rumo ao fim
Acho que ninguém tem dó de mim
"Amendoim", em Toda Cura para Todo Mal, do Pato Fu
Primeiro parágrafo de Como me Tornei Estúpido, de Martin Page
"Acho que sou um cachorro sim
Acho que sou um cachorrim
Minha vida vai
Um ano contam sete
Rumo ao fim
Acho que ninguém tem dó de mim
"Amendoim", em Toda Cura para Todo Mal, do Pato Fu
21.6.05
Difícil aspirar as pessoas como um aspirador de pó.
- Papai, inventei uma poesia.
- Como é o nome?
- Eu e o sol. – Sem esperar muito recitou: - “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mais eu não vi”.
- Sim? Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?
Ela olhou-o um segundo. Ele não compreendera...
- O sol está em cima das minhocas, papai, e eu fiz a poesia e não vi as minhocas... – Pausa. – Posso inventar outra agora mesmo: “Ó sol, vem brincar comigo”. Outra maior:“Vi uma nuvem pequena
coitada da minhoca
acho que ela não viu”.
- Lindas, pequenas, lindas. Como é que se faz uma poesia tão bonita?
- Não é difícil, é só ir dizendo.
Já vestira a boneca, já a despira, imaginara-a indo a uma festa onde brilhava entre todas as outras filhas. Um carro azul atravessava o corpo de Arlete, matava-a. Depois vinha a fada e a filha vivia de novo. A filha, a fada, o carro azul não eram senão Joana, do contrário seria pau a brincadeira. Sempre arranjava um jeito de se colocar no papel principal exatamente quando os acontecimentos iluminavam uma ou outra figura. Trabalhava séria, calada, os braços ao longo do corpo. Não precisava aproximar-se de Arlete para brincar com ela. De longe mesmo possuía as coisas.
Divertiu-se com os papelões. Olhava-os um instante e cada papelão era um aluno. Joana era a professora. Um deles era bom outro mau. Sim, sim, e daí? E agora agora agora? E sempre nada vinha se ela...pronto.
Inventou um homenzinho do tamanho do fura-bolos, de calça comprida e laço de gravata. Ela usava-o no bolso da farda de colégio. O homenzinho era uma pérola de bom, uma pérola de gravata, tinha a voz grossa e dizia de dentro do bolos: “Majestade Joana, podeis me escutardes um minuto, só um minuto podereis interromperdes vossa sempre ocupação?” E declarava depois: “Sou vosso servo, princesa. É só mandar que eu faço.”
12.4.05
Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira, J.D. Salinger
(...)
" Se quando eu começar a ter consultas com um analista, espero ardentemente que ele tenha o bom senso de convidar um dermatologista para as sessões. Um especialista em mãos. Tenho cicatrizes nas mãos por haver tocado em certas pessoas. Uma vez, no parque, quando a Franny ainda era levada para lá num carrinho de bebê, passei a mão, por tempo demais, na penugem que cobria a cabeça dela. A outra vez aconteceu no cinema da Rua 77, quando eu assistia com Zooey a um filme de horror. Ele tinha uns seis ou sete anos, e se enfiou embaixo da poltrona para não ver uma cena assustadora. Pus a mão na cabeça dele. Certas cabeças, certas cores e texturas de cabelo humano deixam marcas permanentes em mim. Outras coisas também. A Charlotte um dia se afastou correndo ao sairmos do estúdio, e eu agarrei seu vestido para fazê-la parar, para mantê-la perto de mim. Um vestido de algodão amarelo que eu adorava por ser comprido demais para ela. Ainda tenho uma mancha amarelo-limão na mão direita. Ah, meu Deus, se há algum termo clínico que me sirva, sou uma espécie de paranóico ao contrário. Suspeito que as pessoas estejam sempre conspirando para me fazer feliz."
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