Um dia se apaixonou. Ela era casada, precocemente grisalha e grávida. De uns sete meses, acho. Ela, a pesquisadora, o via como uma esfinge a decifrar. Largou o marido. Nem ligou de trocar Ipanema pelo barraco debaixo do viaduto lá perto de Deodoro. Ela achava aquela experiência tão enriquecedora. Não se sentia no direito de tirar-lhe isso.
Ele a soterrava com indagações. E ela pesquisava. Mal tinha tempo pra ver o bebê. Um dia, achando tudo que ela lhe dava muito pouco, num beijo, de um só golpe, ele chupou a alma dela bem lá do fundo.
Pelo menos foi isso que ele me contou da última vez que eu fui lá e dei de cara com ela sentada na sala, com o bebê no colo, os olhos fixos na tela de Munch que eles tinham no lugar da tv. Ele disse que o bebê precisava de uma figura materna. E que não podia enterrá-la porque, tecnicamente, ela não estava morta. Só oca. Ele falou algo sobre gosto de limão e da plenitude de ser dois num corpo só. Acho que foi plenitude sim. Eu já não ouvia direito. Ele estava muito perto de mim, sussurrando as palavras de um jeito muito gostoso:
- Não vejo a hora de ser três.
Tentei chamar por socorro, mas já era tarde.