de beijar a si mesmo enquanto se beija um outro.
Veja o hino aqui.
22.8.12
6.8.12
Metonimicamente
Inúmeras vezes, eu confundo o farol do carro do meu pai com o olhar dele. Como agora, quando espero que ele surja naquela curva ali. Os faróis olham pra mim ao passar, as grades dos motores respiram o meu odor, as rodas caminham na minha direção.
Quando o que aponta na esquina tem modelo e cor iguais ao de algum que já pertenceu a ele, meu coração dispara em antecipação antes que o meu cérebro lembre ao resto do corpo de que não é mais aquele o carro que ele dirige.
Quando o carro é idêntico ao que ele tem agora, quando passa pelos filtros da visão e da memória através dos quais meus olhos e cérebro o testam, minhas pernas imediatamente disparam atrás do veículo antes que - em meio à corrida - eu consiga enxergar a outra família que há dentro dele, o outro pai (e nenhuma mãe) ao volante. Faço isso uma, duas, três vezes antes que o carro do meu pai apareça.
Quanto mais ele se aproxima, mais patético se revela o meu medo de que ele não me reconheça e me deixe lá. Esquecida numa calçada na Barra da Tijuca, num domingo chuvoso, onde tudo ao meu redor cospe fumaça.
O fato é que, provavelmente, o meu pai me viu logo que fez a curva. Ele vem devagarzinho pela pista mais próxima à calçada. Pisca o farol uma, duas, três vezes. Depois, com um esforço que é quase como o de um malabarista pro seu corpo pesado, ele segura o volante com uma só mão e se estica majestosamente para abrir a porta do passageiro.
Mas não nos esqueçamos de que este é o meu pai. Portanto, assim que eu pulo pra dentro, com o carro meio que ainda em movimento, ele franze a testa e reclama. Reclama com preocupação típica de quem só dirige em tráfego de cidade pequena: eu não podia ter demorado tanto pra entrar e ele, na verdade, não devia nem estar tentando parar ali, com todos aqueles carros. Vindo, assim, atrás.
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