19.10.06

Faaca

Eu não acredito
em tudo que eu mais quero
mas vivo a sonhar
com você a me beijar
e essa dor que mata
faz viver e acordar pra mim
Eu quero ver você dançar
em cima de uma faca molhada de sangue
enfiada no meu coração
("Faaca", Mombojó)


Os bêbados, a praça, os arcos, o bonde.
Escurecia.
O choro, a histeria.
Só desculpas adiantariam.
Mas ele tava tão desesperado quanto.
Então, foda-se.
- Não, não quero que você ligue, não quero ficar perto, não dá pra eu me acalmar, porra! Dane-se que estejamos demorando muito: olha a minha cara! O carro!, quer ser atropelado? Ah, vai dar uma de vítima? Morrer e desaparecer: como se adiantasse! Só o que adianta é uma atitude sua, qualquer que seja. Entendeu? E então?
E então, aparafusei o sorriso, fixei um ponto e pronto. Só num consegui me fazer de surda:
– Por que é que você não me beija, amorzinho?
Ah, amorzinho, só um beijinho.
Num é pedir muito.
Não seja mau.

26.9.06

Barrados no Baile

Era um garoto com um black e um beck. Usava o mesmo casaco em todas as festas. Sorria e a gente se derretia. Falava e a gente se apaixonava. Tanto é que, na noite em que a primeira tomou coragem, a outra foi logo atrás e disse, assim mesmo, cutucando no ombro: “Agora é a minha vez”. Depois ficou com vergonha de encontrar com ele pelos corredores. Tinha inventado histórias. Iludido o menino, coitado.
Eu que não quis nada com o sedutor. Pra depois me arrepender ao ver aquela loura agarrada, pendurada, enganchada no pescoço dele. Engolindo, apertando, lambendo, amassando ele contra o murinho. Quando ele desapareceu, eu, cheia de esperanças, disparei atrás. Em vão.

Só me sobrou o guardanapo, já que ele me abraçou, derreteu meu coração, mas me deixou sozinha na pista, abandonada ao batidão.

25.8.06

Ele

- Eu nem vi seu rosto direito ainda, mas não faz diferença. Depois que eu mordi a sua bunda - vc botou a bunda na minha cara! - e que a gente ficou junto, lá, com aquele monte de gente, eu senti que vc era assim. Assim, igual eu, porque o cara que disse que os opostos se atraem tava completamente doido, são as afinidades, as pessoas ficam juntas por causa delas. Eu nem tinha visto o seu rosto, mas eu senti. Espera só o japonês trazer a minha cerveja que a gente já vai dar uma volta.

Se eu contar, você num acredita. Eu vivi numa casa invadida em Niterói, eu num tinha dinheiro nenhum, eu ia a pé pra faculdade que ficava longe pra caralho, aí eu transferi pra cá, e aqui é muito bom, é muito bonito, mas ultimamente. Ultimamente, - cara, pra quê que eu vou falar disso pra vc? vc nem tá interessada, que chato. Tá bom, eu vou falar, mas num sei se vc vai entender. Se bem que eu acho que todo mundo, todo mundo que estuda aqui, pelo menos, deve pensar nisso, numa vida simples.
Sabe, eu nem gostava de Los Hermanos até ouvir o 4, aquele cd alegre, e parei pra ouvir O Vencedor. Eu me identificava com a melodia, mas aí prestei atenção na letra ("Não faz isso, amigo/ Já se sabe que você/ só procura abrigo,/ mas não deixa ninguém ver/ Por que será?// Eu que já não sou assim/ muito de ganhar,/ junto as mãos ao meu redor/ Faço o melhor que sou capaz/ só pra viver em paz").
É meio assim, sabe, quem foi que disse que eu tenho sempre que evoluir, que eu tenho que terminar a faculdade, que eu tenho que ser arquiteto? Eu queria ter o direito de largar tudo, de viver de música, sei lá, acho que eu podia ser um cara melhor, ser mais feliz se eu vivesse uma vida simples. Mas, bicho, ninguém me obriga a fazer isso, eu tenho trinta anos, fui criado pelo meu avó analfabeto lá em Guarapari, qualquer dia desses minha vó vai morrer, eu podia largar isso tudo e ir pra lá cuidar dela, sabe?
A consciência, cara, a consciência é a pior prisão da gente. É Foucault, eu sei. Mas eu queria ter o direito, pelo menos o direito, de poder tudo, já que teoricamente há essa possibilidade. Mas num é assim, por mais que - eu tô no sétimo período e já tenho uma certa idade. Eu não queria, às vezes, eu penso, penso, penso e não queria que a vida fosse só... se desenvolver, comer, estudar, foder, mijar e mais nada. Num queria que a vida fosse nada.
Ah, eu queria não saber de nada disso. Não pensar. A ignorância. Olhar as plantas. Ficar com você e só.

20.8.06

V for Vendetta

"- Why won't you die?!
Why won't you die ?
- Beneath this mask there is more than flesh. Beneath this mask there is an idea, Mr Creedy. And ideas are bulletproof."

22.6.06

"Folsom Prision Blues"

Hello I'm Johnny Cash

I hear the train a comin' it's rollin' round the bend
And I ain't seen the sunshine since I don't know when
I'm stuck in Folsom Prison and time keeps draggin' on
But that train keeps a rollin' on down to San Antone

When I was just a baby my mama told me son
Always be a good boy don't ever play with guns
But I shot a man in Reno just to watch him die
When I hear that whistle blowin' I hang my head and I cry

I bet there's rich folks eatin' in some fancy dining car
They're probably drinkin' coffee and smokin' big cigars
Well I know I had it comin' I know I can't be free
But those people keep a movin' and that's what tortures me

Well if they freed me from this prison if that railroad train was mine
I bet I'd move it on a little farther down the line
Far from Folsom Prison that's where I want to stay
And I'd let that lonesome whistle blow my blues away

15.4.06

On the Road, Jack Kerouac

"Perambulei catando baganas nas calçadas. Cruzei por um boteco na rua Market e a mulher que estava lá dentro me lançou um olhar terrível enquanto eu passava; era a proprietária, aparentemente pensando que eu fosse entrar ali armado de pistola e assaltar o botequim. Caminhei um pouco mais. Subitamente me ocorreu que ela tinha sido minha mãe uns duzentos anos atrás na Inglaterra e eu, seu filho salteador, retornando do cárcere para perseguir seus pais honestos e trabalhadores num acerto de contas no pequeno bar. Enregelado pelo êxtase, estanquei na calçada. Olhei para a rua. Não consegui saber se era mesmo a Market ou a rua do Canal em Nova Orleans; afinal ela ia dar na água, água ambígua e universal, exatamente como a rua 42, em Nova Iorque, que também leva em direção à água, de modo que você nunca sabe bem onde está. Pensei no fantasma de Ed Dunkel se arrastando pela Times Square. Eu delirava. Quis voltar e ver minha mãe Dickensiniana no boteco. Eu tremia da cabeça aos pés. Era como se um pelotão inteiro de memórias me conduzisse de volta a 1750, na Inglaterra, só que agora eu estava em São Francisco, em outra vida, noutro corpo. 'Não', parecia gritar aquela mulher, com seu olhar aterrorizado, 'não volte para atormentar a sua mãe honesta e trabalhadora. Você já não é mais meu filho, assim como seu pai, meu primeiro marido. Aqui, esse grego generoso se apiedou de mim' (o proprietário era um grego de braços peludos). 'Você é mau, com tendências à baderna e à bebedeira e, o que é pior, ao roubo dos frutos do meu trabalho, daquilo que ganho com o suor do me rosto neste boteco imundo. Oh, filho! Você já se ajoelhou e rezou para a remissão de todos os seus pecados e más ações? Pobre menino! Suma daqui! Não amedronte mais meu espírito; eu fiz bem em te esquecer. Não reabra velhas feridas; que seja como se você nunca houvesse voltado e me encarado - jamais houvesse visto minha labuta humilhante, meus parcos centavos sofregamente batalhados - os quais está sempre ávido para agarrar, sempre pronto pra roubar, oh, desalmado, maldoso e sombrio filho da minha própria carne. Meu filho! Meu filho!' (...) E por um instante alcancei o estágio de êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação de morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para a frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram vôo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência Mental, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu. Eu podia ouvir um farfalhar indescritível que não estava apenas nos meus ouvidos mas em todos os lugares, e não tinha nada a ver com sons. Percebi ter morrido e renascido incontáveis vezes, mas simplesmente não me lembrava justamente por que as transições da vida para a morte e de volta à vida são tão fantasmagoricamente fáceis, uma ação mágica para o nada, como adormecer e despertar um milhão de vezes na profunda ignorância, e em completa naturalidade, compreendi que somente devido à estabilidade da Mente propriamente dita aconteciam essas ondulações de nascimento e morte como se fosse a ação do vento sobre um lençol de água pura, serena e espelhada. Senti uma satisfação completa, ritmada, como um pico de heroína numa veia principal; como aquele gole de vinho que te traz um arrepio de satisfação num fim de tarde; meus pés se arrepiaram. Pensei que ia morrer naquele exato instante."