- Eu nem vi seu rosto direito ainda, mas não faz diferença. Depois que eu mordi a sua bunda - vc botou a bunda na minha cara! - e que a gente ficou junto, lá, com aquele monte de gente, eu senti que vc era assim. Assim, igual eu, porque o cara que disse que os opostos se atraem tava completamente doido, são as afinidades, as pessoas ficam juntas por causa delas. Eu nem tinha visto o seu rosto, mas eu senti. Espera só o japonês trazer a minha cerveja que a gente já vai dar uma volta.
Se eu contar, você num acredita. Eu vivi numa casa invadida em Niterói, eu num tinha dinheiro nenhum, eu ia a pé pra faculdade que ficava longe pra caralho, aí eu transferi pra cá, e aqui é muito bom, é muito bonito, mas ultimamente. Ultimamente, - cara, pra quê que eu vou falar disso pra vc? vc nem tá interessada, que chato. Tá bom, eu vou falar, mas num sei se vc vai entender. Se bem que eu acho que todo mundo, todo mundo que estuda aqui, pelo menos, deve pensar nisso, numa vida simples.
Sabe, eu nem gostava de Los Hermanos até ouvir o 4, aquele cd alegre, e parei pra ouvir O Vencedor. Eu me identificava com a melodia, mas aí prestei atenção na letra ("Não faz isso, amigo/ Já se sabe que você/ só procura abrigo,/ mas não deixa ninguém ver/ Por que será?// Eu que já não sou assim/ muito de ganhar,/ junto as mãos ao meu redor/ Faço o melhor que sou capaz/ só pra viver em paz").
É meio assim, sabe, quem foi que disse que eu tenho sempre que evoluir, que eu tenho que terminar a faculdade, que eu tenho que ser arquiteto? Eu queria ter o direito de largar tudo, de viver de música, sei lá, acho que eu podia ser um cara melhor, ser mais feliz se eu vivesse uma vida simples. Mas, bicho, ninguém me obriga a fazer isso, eu tenho trinta anos, fui criado pelo meu avó analfabeto lá em Guarapari, qualquer dia desses minha vó vai morrer, eu podia largar isso tudo e ir pra lá cuidar dela, sabe?
A consciência, cara, a consciência é a pior prisão da gente. É Foucault, eu sei. Mas eu queria ter o direito, pelo menos o direito, de poder tudo, já que teoricamente há essa possibilidade. Mas num é assim, por mais que - eu tô no sétimo período e já tenho uma certa idade. Eu não queria, às vezes, eu penso, penso, penso e não queria que a vida fosse só... se desenvolver, comer, estudar, foder, mijar e mais nada. Num queria que a vida fosse nada.
Ah, eu queria não saber de nada disso. Não pensar. A ignorância. Olhar as plantas. Ficar com você e só.