7.6.12

Maio

A gente estava super feliz. Eu, a minha melhor amiga, a minha nova melhor amiga, os amigos delas e os outros que tínhamos acabado de conhecer. Todos felizes com a ajuda de substâncias mágicas e de horas dedicadas ao ócio. Era madrugada e estávamos num bar. Um bar lotado, as pessoas de pé na rua, os carros passando rente aos bêbados. O banheiro, um nojo. A fila, um capítulo à parte.
E aí ele apareceu. Eu o vi primeiro e, feliz que eu estava, apontei bem no meio da cara dele e o mostrei pra todas as minhas amigas. Ele viu, abanou a cabeça e riu. Mais cedo, no outro bar, a gente falava da beleza que era a juventude, principalmente quando contemplada em oposição ao criador da rosa que me foi oferecida e seus companheiros de mesa.

O das substâncias mágicas foi, voltou e nos perguntou se ainda estávamos lá. E sim, estávamos, sem a menor ideia de quanto tempo já tinha se passado.
Aí, sei lá.
Aí eu senti alguém atrás de mim, me virei e era ele. Aí ele falou. Eu não ouvi nada. Eu só sei que ele fez como da primeira vez. Foi conversando e chegando mais perto e conversando e chegando mais perto até que quem o beijasse fosse eu. Só que da primeira vez eu ouvia o que ele dizia.

Da primeira vez, eu estava morrendo de vontade de fazer xixi. Era quarta-feira de cinzas e eu já estava no meu segundo bloco do dia, o último do carnaval. Já tinha estado sóbria e bêbada incontáveis vezes ao longo do dia. O desespero assolava todas as almas, que inevitavelmente contemplavam o inóspito futuro que as aguardava além do sábado de aleluia. Eu fugia de um médico inteligente, rico e bem-educado que beijava terrivelmente mal.
Aí eu o vi e, naturalmente, contei tudo isso pra ele. Ele não aparentava ter a idade que tem - vocês, por favor, tem que entender. Os beijos dele, minha gente. Os beijos dele eram metalinguísticos.