22.9.12

Sobre a dúvida

Os carros zunem pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, bem rente à calçada. São tantos e tão rápidos que ultrapassam a legião que jorra dos meus fones e penetram pelos meus ouvidos, atropelando os pensamentos que nadavam descompromissados de um lado pro outro da minha cabeça, no ritmo nostálgico da música.
Eles não fogem assustados, como seria de se esperar, mas persistem, se agarrando às bordas com força. Não chegam a calar o ruído exterior, mas tampouco parecem dispostos a se deixar afogar.
Tudo ao meu redor vacila. Minha vida pensada, minha vida vivida. A verdadeira e a errada.
De repente me vem a necessidade incontrolável de sentar ali mesmo naquele bloco de cimento circular junto ao meio-fio, puxar uma folha de papel de dentro da bolsa e escrever.
Escrever sobre a vitrine daquela loja de roupa de cama na esquina da Constante Ramos que representa o interior de um quarto incrivelmente mais caseiro e confortável do que qualquer quarto real possa parecer.
Escrever sobre os dois meninos de rua sentados num banco na Dias da Rocha, cuja outra extremidade é ocupada por outros dois meninos, esses mais velhos e mais bem-vestidos, que parecem estar sendo entrevistados por outros dois meninos que tiram fotos e fazem perguntas. Sobre a cor deles e das roupas deles e sobre como a luz do poste ao lado do banco cai sobre cada um deles nesta noite chuvosa e abafada.
Escrever sobre como, em alguma volta do caminho, eu acabei dando a volta mais comprida e fui me encontrar de novo só mais tarde. Ou não. Sobre a vida nessa cidade grande, clichê, cruel e impessoal. Sobre o tempo. Sobre a dúvida.
Escrever sobre a velha que, na altura da Figueiredo, começa animadamente a puxar assunto sobre temas que abrangem desde os moradores de rua até suas netas, passando pelo conteúdo das suas várias sacolas. O que eu ouço não tem muita coerência, mas a essa altura eu já não estou mais disposta a fazer perguntas ou a remover os fones de ouvido pra compreender melhor.
Sentar e escrever agora porque eu sei que, quando o momento passar, nada vai soar assim tão honesto.